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14 de setembro de 2013

Maalula, a cidade cristã onde se fala o aramaico, atacada por milicias muçulmanas na Síria

Uma estátua de Nossa Senhora velava sobre a cidade. Ela foi destruída.
A cruz sobre a cúpula do mosteiro dos Santos Sérgio e Baco não existe mais. Foi removida pelos grupos armados, da vertente jihadista, que na quarta-feira, 4 de setembro, atacaram e invadiram Maalula, o pequeno vilarejo cristão no norte de Damasco, lugar sagrado para todos os sírios, onde ainda se fala o aramaico, a língua originária de Jesus. Também a Igreja de São Leôncio e a dos Santos Cosme e Damião foram atingidas. Como apurado por Fides, os grupos armados que há três meses se estabeleceram sobre a colina que domina o vilarejo desceram e atacaram o posto do bloqueio militar na entrada do vilarejo, matando os soldados que ali estavam.

Depois, entraram no vilarejo e atiraram contra as casas, ferindo três civis. Interpelado pela Agência Fides, o Patriarca melquita Gregório III Laham, amargurado com o que define “a enésima tragédia desta guerra”, lança um apelo comovido “à comunidade internacional, à consciência do mundo inteiro, para salvar o pequeno vilarejo de Maalula”, que está sub a jurisdição do Patriarcado de Damasco, “que é um símbolo cristão muito importante na história da Síria”, explica.
O Patriarca refere a Fides: “Cerca de 80% da população do vilarejo, aterrorizada, fugiu para Damasco.

Ontem, os refugiados, exaustos, vieram desabafar no Patriarcado greco-católico e depois foram àquele greco-ortodoxo. Buscamos uma maneira para confortá-los. Maalula é um lugar sagrado para todos nós, mas antes de tudo o são os seus habitantes: o homem é o templo santo de Deus.

Os grupos armados agora controlam o vilarejo, formado por casas construídas sobre as rochas. E qualquer ação de força para derrotá-los poderia significar a destruição do lugar”, nota com preocupação o Patriarca. Gregório III acrescenta: “Há dois anos e meio carregamos a cruz, somos peregrinos numa Via-Sacra.

O ataque contra Maalula é uma ferida profunda, é o cume do nosso sofrimento, pelo valor histórico, cultural e espiritual que o lugar tem para todos os sírios”.“Maalula é um dos últimos lugares onde ainda se fala um pouco o aramaico, a língua de Cristo. Uma estátua da Virgem, azul celeste e branca, dominava o povoado, a partir de uma das colinas escarpadas que o cercam. “Ela foi destruída”, indica Mariam. Mosteiros – São Sérgio, “considerado como o mais velho mosteiro do mundo”, precisa Mariam, Santo Elias, Santa Tekla – estão hoje ocupados ou ameaçados. Dois outros interlocutores relatam que cruzes, no topo de edifícios religiosos, foram destruídas. Mariam viu os rebeldes serem festejados, em sua entrada, pela população muçulmana de Maalula. “As mulheres lançavam sobre eles arroz em sinal de festa. Os homens seguiam os rebeldes em seus acampamentos da montanha.

Alguns diziam que eles mantinham reféns cristãos”. O Fronte Al-Nosra exorta a um Estado islâmico na Síria. Recentemente, a tensão entre Al-Nosra e a rebelião dita moderada do Exército sírio livre (ASL) subiu, em razão das multiplicações das exações dos jihadistas.No video abaixo, cenas de combate entre os rebeldes islâmicos e o exército sírio:http://www.lepoint.fr/monde/syrie-les-rebelles-toujours-a-maaloula-11-09-2013-1723099_24.phpL’Observatoire de la Christianophobie transcreveu do blog francês Invesg’action este testemunho, obtido em um telefonema a Maaloula:“Nesse momento, Maaloula está sob ocupação. Homens armados (moussallahines) entraram em 4 de setembro. Eles tentavam nos aterrorizar para que nós abandonássemos nossas terras. Eles mataram 20 civis e sequestraram 15 outros. Dispomos da lista de 4 civis executados e 7 desaparecidos: Ilyas Damoune : sequestrado; Jihade Saalab :decapitado à faca ; Mihail Antonio Saalab : decapitado ; Sarkis Habib Al Soukhn : morto a tiro ; Antoine Lauzarios Saalab : decapitado e mutilado ; Moussa Chmays : sequestrado ; Chadi Saalab : sequestrado ; Georges Dawoud Hilani e sua esposa, sequestrados ; Jamilé Mahfouz e sua filha, sequestradas. No momento, os terroristas estão em toda parte nas igrejas e mosteiros: incendiaram o mosteiro de Mar Sarkis  Mar Bakhos  [São Sergio e São Baco: soldados romanos mártires na região]. Eles reviraram e saquearam tudo, em meio a muitas blasfêmias.

Muito habitantes da cidade fugiram para Damasco. O ataque [de 4 de setembro] custou a vida de vinte milicianos dos comitês populares que defendiam a cidade.
Os dois únicos sobreviventes foram decapitados. Depois os terroristas investiram contra as primeiras casas da cidade. Tentaram exigir com que Abu Aala al Haddad, um cristão que vivia no Líbano e passava férias em sua aldeia natal, se convertesse ao Islã. Quebraram cruzes e ícones e saquearam toda a casa antes de matá-lo, gritando: “Nós fazemos a guerra santa contra os Cruzados”. Os terroristas passaram em seguida à casa vizinha habitada por uma viúva, Jamilé Mahfouz, e sua filha. Um filho dessa mulher está desaparecido há muitos meses. A mãe tentara fazer passar a filha por muçulmana para evitar seu sequestro, mas os terroristas gritaram ao vê-las:

“Aqui estão ímpias!” Chamaram-nas de adoradoras da cruz, enquanto destruíam a cruz que tinham em casa e as sequestraram.Parando diante da imagem de São Jorge, na frente do mosteiro do mesmo nome, eles gritavam nos alto falantes: “Que você quer que nós quebremos primeiro, São Jorge, sua cabeça ou seu cavalo?” Em seguida a destruíram.(…)

Na praça da cidade, eles blasfemavam diante de todos os objetos sagrados, ícones, cruzes e estátuas. As crianças estavam tão aterrorizadas que perderam a voz. (…) Entre os terroristas, parecia haver líbios e chechenos.[Após terem sido expulsos durante dois dias, eles voltaram com força]. Esta manhã, cerca de mil terroristas chegaram pelo caminho que leva ao Mosteiro de São Sergio e São Baco, unindo-se aos que tinham ficado sitiados no Hotel As Safir. Diante de seu número, o exército se retirou para a periferia da cidade. Eles decapitaram quatro jovens. Dois foram mortos a tiros.

Um dos decapitados foi Antoine Saalab, assistente do Padre Toufik Eid, superior do Mosteiro de São Sérgio e São Baco, assim como seu pai e um primo paterno, denunciados por pessoas da cidade. Todos os cristãos estão fechados em suas casas, apavorados. [Trecho inaudível no telefonema] três tios com várias crianças. Não temos meios de comunicação com eles. No momento, terroristas ocupam igrejas e mosteiros. Eles estão cercando o Mosteiro de Santa Tecla. A superiora Madre Pelagia implora a ajuda das autoridades sírias. (…)

Mosteiro de São Sergio e São Baco
O jornal francês de esquerda Libération também publicou testemunhos ouvidos durante os funerais em Damasco de habitantes de Maalula:“Ouvi uma explosão e do arco de entrada da cidade não existia mais nada!“, lembrava Adnane Nasrallah, 62 anos. Uma jovem chamada Racha conta ter ligado para o celular de seu noivo Atef, que pertencia às milicias de defesa da cidade, e ter falado com alguém que afirmou: “Atef não quis se converter e nós o degolamos. Jesus não veio salvá-lo.  Se quiser vir buscá-lo, venha com sacos de lixo, pois nós o cortamos em cem pedaços.”

Eis a porta da cidade no dia 7 de setembro de 2013. Hoje, ela não existe mais

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